.

.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Vizinhos de mineradora se queixam de poeira, lama e medo de deslizamento no Ipiranguinha

Por Renata Takahashi –  Do Site  Informar Ubatuba - 01/05/2016 No bairro do Ipiranguinha, a intensificação dos trabalhos de miner... thumbnail 1 summary


Por Renata Takahashi –  Do Site  Informar Ubatuba - 01/05/2016

No bairro do Ipiranguinha, a intensificação dos trabalhos de mineração no morro que fica entre as ruas Sucupira, Frei Tarcísio Corrêa e Vale do Sol, somada ao período sem chuva fez com que a poeira se espalhasse notavelmente pelas ruas e arredores. 




A Mineradora de Saibro Ubatuba (MSU), responsável pela atividade de mineração no local, culpa o tempo seco pela poeira.


A questão da poeira, além de problemas no asfalto e medo de deslizamentos de terra e pedras, vem gerando uma série de queixas à atividade minerária no Ipiranguinha por parte de moradores locais. Assim, a comunidade tomou iniciativas como recolher assinaturas para um abaixo-assinado, reclamar na Internet e protocolar queixas na Copam (Comissão de Limpeza Urbana e Proteção Ambiental), na Ouvidoria da Saúde e na Prefeitura.

00:00 / 04:17
“A casa eu só estou podendo limpar à noite, depois que para tudo”, relata a costureira Luciete, que reside na rua Vale do Sol, quase em frente à entrada e saída dos caminhões. “É muito, muito pó”, reclama, apontando para o chão e os móveis empoeirados. “Eu mesma já assinei um abaixo-assinado”, conta.
Maria - Rua Ba
Moradora da rua Bauxita, de uma residência próxima ao morro, dona Maria também só estende suas roupas para fora de casa a noite, quando o transporte de saibro para. Segundo ela, esperar o ônibus no ponto da rua Frei Tarcisio também se tornou um transtorno por causa da poeira. “No ponto de ônibus ali, o pessoal reclama que não pode nem sentar mais, porque o banco está lotado de poeira. [Quando] passa caminhão a roupa fica toda preta, todo mundo começa a tossir. Então tá um caos”, descreve.
Cristiani Daniele - Rua Frei Tarcísio Corrêa - Entrevista
00:00 / 02:43
Rachaduras e afundamentos no asfalto das vias utilizadas pelos caminhões carregados de saibro também são alvos de reclamações. “O asfalto é uma judiação, porque está quebrando todinho nosso asfalto, que foi anos para conseguir para ficar assim”, aponta a moradora da rua Frei Tarcisio, Cristiani Daniele. Segundo a jovem, a saúde de seu filho tem sido prejudicada pela poeira. Além disso, ela se queixa de um poste que caiu em cima da casa onde vive com sua família, quebrando parte do telhado. “O caminhão de bombeiro entrou aqui dentro do barreiro e nisso ele puxou um fio, um cabo de aço que tinha no poste, o poste caiu aqui dentro da minha casa na minha área”, diz. Ela estava em casa no momento, conta que ficou assustada e depois teve que arcar com o concerto do telhado. Em entrevista ao InforMar, um sócio proprietário da MSU afirmou que a casa atingida pelo poste seria propriedade da mineradora, por isso não houve indenização pelos danos.
William - Rua Frei Tarc
·          
·          
00:00 / 04:57
Outro morador da rua Frei Tarcísio Corrêa, William Souza, também reclama da poeira e dos danos no asfalto, além da insegurança por medo de delizamento de barro e pedras. “Já teve índice de deslizamento de grande quantidade de barro pra dentro da minha residência, como de outras residências e até mesmo em cima do asfalto”, afirma.
Maria da Conceição - Rua Sucupira - Entrevista
·          
Uma das residências atingidas pelos dois deslizamentos de lama que, segundo os moradores, já ocorreram em dias chuvosos foi a da dona Maria da Conceição, que reside na rua Sucupira. Na primeira vez, a água teria arrebentado um muro e invadido ao menos quatro casas. “E até minha casa encheu de água e nós perdemos tudo que tinha. Se fosse à noite a gente tinha morrido”, conta a viúva. “O que eu acho é que eles tinham que ter mais cuidado é com a gente aqui embaixo, né? Porque dinheiro não paga a vida de ninguém. E eu acho que nós aqui corre perigo, eles falam que não corre, mas eu acho que a gente corre perigo aqui embaixo”, enfatiza dona Maria.

OS “DONOS DO MORRO”

Após ouvir os moradores na terça-feira (26), a reportagem do InforMar procurou a Mineradora de Saibro Ubatuba (MSU), que agendou entrevista para o dia seguinte, no escritório da Barollo Imóveis, na rua Cunhambebe, no Centro. Dois representantes da empresa estiveram presentes. o sócio proprietário Rafael Irineu, ex-secretário de Arquitetura e Urbanismo de Ubatuba durante a gestão Eduardo César (PSDB, na época DEM), respondeu à entrevista ao lado do advogado Thiago Penha, presidente da OAB de Ubatuba.
Rafael Ir
·         
·          Na entrevista, o empresário afirma que o morro pertence à mineradora, sendo que desde 1996“existe um ente jurídico que faz a exploração do local”. No período em que a exploração minerária foi interrompida teria havido, segundo ele, perda de prazo de renovação de licença, e não embargo, conforme "boatos".

“Hoje, o grande volume que está acontecendo é por causa de uma obra do estado”, afirma Rafael. Há pouco tempo, com o material retirado do morro, a empresa MSU aterrou uma grande área onde está sendo construído um novo supermercado e, atualmente, faz o aterramento de um terreno onde devem ser construidas 376 unidades habitacionais da CDHU.

Para o empresário, o problema da poeira foi causado pelo longo período sem chuva. “Hoje [27 de abril] nós temos uma alteração de tempo. Hoje está chovendo, e está esfriando. Acabou o problema. A chuva veio e resolveu”, aposta. Mesmo sem que a empresa tenha convocado uma reunião aberta a todos, Rafael garante que a mineradora tem procurado individualmente moradores que estejam incomodados para dialogar.

De acordo com Rafael, ao contrário do que dizem os moradores do entorno, nenhum deslizamento aconteceu, tendo havido o que classifica apenas como “um acúmulo de água numa bacia de decantação” que, segundo ele,  "já foi superado".

O representante da MSU diz ser uma injustiça falar que foram so caminhões carregados da mineradora que afundaram o asfalto. “O asfalto deveria ser suficientemente resistente para que o caminhão passasse em cima”, critica Rafael, apontando também possíveis problemas de drenagem na rua Frei Tarcísio, uma vez que mesmo no período seco os buracos ficariam cheios de água. Ele afirma que a empresa já se prontificou a ajudar, mas que o asfalto é competência do município.

Como compensação ambiental, o sócio proprietário alega que a empresa mantém averbada e preservada uma área de tamanho igual à da área que está sendo desmatada e escavada. “A mineradora está licenciada. A gente está fazendo o que manda a lei”, assegura Rafael Irineu que, no entanto, não quis apresentar à reportagem do InforMar a licença da mineradora para explorar o morro no Ipiranguinha.

Na página da Cetesb, está disponível uma renovação de Licença de Operação para a empresa de razão social José da Silva Areia - EPP, válida até o dia 23/04/2016. Em março deste ano, a MSU solicitou uma Licença Prévia e uma Licença de Instalação à Cetesb, que ou ainda não foram concedidas, ou ao menos ainda não foram publicadas no endereço online do órgão estadual responsável pelo controle, licenciamento, fiscalização e monitoramento das atividades.

A Licença de Operação vencida há uma semana deixava claro que “caso venham a existir reclamações da população vizinha em relação a problemas de poluição ambiental causados pela firma, esta deverá tomar medidas no sentido de solucioná-los em caráter de urgência”. Entre as exigências técnicas da Cetesb, está descrito no documento que “as vias de acesso, o pátio e as áreas de movimentação com tráfego de máquinas e de veículos (cobertos por lona), deverão ser pavimentadas ou umectadas permanentemente, de forma a impedir a emissão de poeira (material particulado) fora dos limites de propriedade do empreendimento”. O documento destaca, ainda, que a licença era válida “somente para atender e realizar a extração de saibro, estando proibida a exploração de granito sob qualquer forma”.

O sócio proprietário Rafael Irineu reconhece que a licença era específica para saibro. “Daquele morro é extraído saibro. Hoje nós temos autorização para saibro. Saibro é aquele material, a poeira que todo mundo reclama. A gente tem licença específica para extração de saibro”, sublinha. No entanto,  a placa exibida no muro em frente ao morro onde a mineradora atua anuncia os produtos brita, rachão, saibro e capa de morro. No facebook www.facebook.com/MSUmineradoraubatuba a foto de capa exibe “Granito Verde Ubatuba” e “Moledo”.

Na descrição da página do facebook atribuída à mineradora, a página de vendas acessada pelo endereço www.diogomsuvendas.wix.com/msumineradoraubatuba exibe uma série de outros produtos, incluindo "Granito Verde Ubatuba" em diversos formatos.
O empresário garante que “os bons tratos e os bons modos de execução de serviço estão sendo cumpridos”. Em outro momento da entrevista, queixando-se das supostas dificuldades das mineradoras, como alto custo fixo, Rafael diz que a mineração é “uma atividade em que ninguém trabalha pelos lindos olhos verdes do meio ambiente, também. A gente trabalha para ter lucro, é uma empresa. Empreendedorismo”, destaca.



Nenhum comentário

Postar um comentário