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domingo, 2 de outubro de 2016

UBATUBA DESPONTA NA PRODUÇÃO DE PRODUTOS ECOLOGICAMENTE CORRETOS..........

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Muito antes da onda dos produtos ecologicamente corretos, Ubatuba já despontava por sua produção agrícola na contramão do agronegócio. O motivo disso se deve principalmente por uma geografia peculiar que impede a presença do cultivo extensivo aliado ao fato de que quase a totalidade do seu território está inserida em área de proteção integral (85% do município é reserva ambiental da Mata Atlântica), onde incide uma legislação ambiental rigorosa. O jeito é produzir em pequena escala e em sistema agroflorestal. É o que fazem os produtores locais.



Segundo levantamento informal da Secretaria de Agricultura, Pesca e Abastecimento do Município, quase a totalidade dos produtos do município são oriundos da agricultura familiar, ou seja, desse sistema em que o cultivo da terra é realizado por pequenos proprietários rurais e cuja mão de obra é essencialmente familiar. Se por um lado esse tipo de produção é pouco adaptável ao mercado convencional e menos ainda ao de exportação, por outro traz um enorme potencial para se tornar, além de mais justa socialmente, menos agressiva para o meio ambiente e mais saudável para os consumidores. “O valor atribuído à agricultura familiar de Ubatuba vem justamente da sua simplicidade em gerar produtos de alta qualidade nutricional e livre de contaminantes químicos, ou seja, do resgate de uma maneira tradicional de produzir alimentos”, afirma Isabel Viegas, pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento.
Estimulados pela procura cada vez maior na cidade, muitos agricultores de Ubatuba já são ou estão em transição agroecológica, ou seja, estão parando de utilizar agrotóxicos e adubos sintéticos e estão aproveitando mais os produtos da biodiversidade local. Um dos destaques da produção orgânica do município vem das mãos da agricultora Anne Kamiyama, produtora de gengibre no bairro do Araribá desde 1980. Seus produtos recebem certificação pelo IBD, única certificadora 100% brasileira com atuação internacional. Um dos indicativos desse aumento da procura é o nascimento, nos últimos três anos, de algumas iniciativas de comercialização de produtos que adotam este sistema de produção. A pioneira nessa área é a Rede Agroecológica Caiçara, uma iniciativa de cinco mulheres envolvidas com o setor, entre elas a pesquisadora da APTA, que se organizaram para facilitar a interface entre produtores e consumidores.
Outra iniciativa mais recente é o surgimento do coletivo Uilikandé, que nasce com alguns princípios e objetivos distintos aos da rede, mas que se soma no escoamento da produção sustentável local. “A ampliação do mercado para esses produtos, além de ser um estímulo para quem já produz dessa forma, também é um incentivo para a transição de outros produtores a uma produção mais sustentável”, opina Viegas. Ela afirma ainda “que os produtos da agricultura familiar no município têm recebido um status que lhes confere alto valor agregado, onde é embutida a qualidade multidimensional que diz respeito também às condições ambientais e socioeconômicas relacionadas à produção orgânica e agroecológica”.
Outro aspecto importante fomentado por essa forma de comercialização dos produtos é o fomento à Economia Solidária local, um tipo de economia que não gera como riqueza apenas o montante comercializado, mas também as trocas simbólicas que acontecem nessa cadeia. A esse respeito, Viegas afirma em seu estudo observando o funcionamento da Rede Agroecológica: “além dos ganhos monetários resultantes da comercialização, a consolidação de uma rede de produção e consumo responsáveis é responsável pela criação de capital social, este mais difícil de quantificar. Entretanto, é esse capital social que mantém a iniciativa em pleno funcionamento e que garante o seu crescimento gradual e maior envolvimento.”
Rede Agroecológica Caiçara
14192054_10209988418330607_5611248777113371635_nO grupo de consumo responsável de Ubatuba é uma iniciativa que surge a partir de uma pesquisa científica produzida por Isabel Fernandes Pinto Viegas e Sílvia Moreira Rojo Vegas e financiada pela APTA, num arranjo interinstitucional e multidisciplinar que envolve pesquisa, assistência técnica, extensão rural e políticas públicas em interação direta com a produção e o consumo. Na ocasião, as pesquisadoras, a atual representante da Secretaria de Agricultura, Pesca e Abastecimento do Município, Carolina Lima, e duas produtoras, notando a dificuldade de acesso por parte dos consumidores e de inserção destes produtos no varejo convencional, se organizaram para torná-los mais acessíveis à população. O sucesso da iniciativa foi tamanho que já na sua primeira edição, em junho de 2013, foram vendidas 30 cestas com a produção de 10 agricultores.
Hoje são 20 produtores ativos participantes que movimentam entre 8 e 10 mil reais por mês. “A venda direta permite o estabelecimento de um preço de equilíbrio mais justo para ambos, produtores e consumidores”, afirma Viegas. Isso porque garantir o escoamento dos alimentos diminui gastos com transporte, armazenamento e com intermediários, possibilitando que os produtores recebam um pouco mais pelos seus produtos sem que os consumidores paguem mais por isso.
Embora a iniciativa seja recente, já passou por diversas fases em sua forma de organização e atualmente comercializa os produtos pela internet, por meio da rede Cirandas, uma plataforma online que oferece ferramentas na internet para promover a articulação econômica, social e política da economia solidária. A lista de produtos “da roça” fica disponível no site semanalmente, o consumidor faz o pedido online até segunda-feira e retira às quartas, na sede da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. O grupo é autogerido e não há lucro no processo, pois todas as etapas da comercialização são executadas com o apoio de participantes voluntários.
Para fazer parte da Rede basta ser um produtor de baixa escala, diversificado, em sistema agroflorestal e seguir as regras de produção orgânica definidas pelo Ministério da Agricultura. Nem todos os produtos são certificados, mas o contato do consumidor com o produtor é tão próximo que prevalece a confiança nessa relação. Os produtores são abertos a visitas e a troca de aprendizados é constante.
Além da produção de um alimento de qualidade, a Rede visa também ser uma alternativa de inclusão econômica de agricultores desfavorecidos pelo sistema convencional, buscando a melhora nas condições de emprego e renda destes trabalhadores trazendo desenvolvimento sustentável para a região. “Incentivar a produção sem produtos químicos, além de preservar nossa saúde e de nossa família ¬ é um ato de cidadania e sustentabilidade, uma vez que, contribui para preservar também a saúde dos agricultores, suas famílias e do meio ambiente”, informam em seu texto de apresentação disponível na página onde recebem os pedidos. Para quem está iniciando neste modo de produção, Palmira da Conceição João, produtora de hortaliças e frutas orgânicas há mais de 20 anos, explica: “Isso de que é mais difícil e mais caro para produzir orgânicos é um mito”.
Tudo tem trabalho, é a questão de você conhecer a terra e saber que pode aprender com ela também. É preciso estabelecer uma relação com a terra, entender sua biologia”. Ela conta que cerca de 50% do que comercializa hoje é vendido pela Rede e está muito satisfeita com a relação que estabeleceu com os consumidores do seu produto.
Inicialmente formada apenas por agricultores locais produtores de hortaliças, frutas, ovos caipiras e mudas de plantas, hoje a Rede agrega também inúmeros outros produtos artesanais. Entre os alimentícios estão pães, salgados, bolos, patês, compotas, queijo, mel, polpas e geleias de frutas locais, entre tantos outros. A maioria deles integral, com produtos da própria Rede e até mesmo de Plantas Alimentícias Não-Convencionais (PANCs), aproveitando toda a biodiversidade da região. Mas há também outros tipos de produtos, como de limpeza, higiene e cosméticos com menor ou nenhum impacto para o meio ambiente, além de fraldas de pano e produtos voltados para a ecologia feminina. Ao contrário dos produtos agrícolas, o foco das vendas dos produtos artesanais é no local de retirada dos produtos encomendados.
Uilikandé
Foto 27-09-16 15 21 44Um ano após o nascimento da Rede Agroecológica, surge outra iniciativa em rede formada por quatro núcleos de produção agrícola na região Sul da cidade, também visando a aproximação da produção com a comercialização de frutas e verduras orgânicas e agroecológicas. As duas redes têm objetivos semelhantes, mas o coletivo nasce com alguns princípios distintos e por isso se organiza de outra maneira. Segundo eles, o projeto “aparece como causa do desejo do grupo de se constituir como grupo, não como efeito da necessidade de uma autoridade central”. Por isso, trabalham num esquema horizontal-cooperativo e totalmente desvinculado de qualquer tipo de instituição, pública ou privada.
A comercialização de seus produtos acontece por sistema de cestas, o que contribui para uma logística de escoamento da produção mais precisa, mas o consumidor também pode somar à cesta outros alimentos ofertados a cada semana. Os pedidos são feitos pela internet, na rede Cirandas, e atualmente há cinco pontos de coleta espalhados pela cidade. São escolas, espaços culturais, mercados, todos que se voluntariam para o recebimento e distribuição das cestas. “Precisamos da ajuda dos consumidores para compreender a necessidade de se consumir uma cesta padrão, pois isso ajuda o agricultor a se planificar e escoar a produção melhor e a produzir de forma variada, pois traz uma estabilidade maior e consequentemente uma perda menor”, afirma Lirca López Avilés, uma das produtoras da rede e a principal responsável pela logística da comercialização.
Embora o foco deles seja a geração de renda para os agricultores, também têm a intenção de servir como “guarda-chuva para apoiar a criação de novos projetos cooperativos, autogestionários e da economia social e solidária em Ubatuba e região, que além de serem viáveis economicamente (seja usando dinheiro nacional, seja combinando alternativas como moeda social e trocas), também forneçam um serviço ao coletivo e à comunidade, que proporcionem formação e satisfação aos membros do coletivo que neles trabalhem, melhorando sua qualidade de vida”. Para tanto, promovem atividades complementares à comercialização como feiras de trocas, mutirões, oficinas, eventos culturais, cineforuns, almoços colaborativos.
Um deles já faz parte do calendário da cidade, o “Sem Reais: Feira de trocas de sementes, mudas, saberes... e tudo mais!”. A feira acontece a cada três meses, não tem fim lucrativo e o seu objetivo é ser um espaço de sementes, mudas, roupas, livros, saberes, serviços e tudo mais que puder ser ofertado no dia. “Acreditamos que nem tudo o que tem valor, tem um preço que possa ser estipulado pelo mercado”, defendem.
Para eles, além da produção de alimentos saudáveis, é importante auxiliar na preservação da cultura local e dos saberes tradicionais e populares e na conservação dos ambientes naturais e seus recursos. Fazem um importante trabalho de recuperação de espécies e variedades crioulas e tradicionais da Mata Atlântica, produção de mudas de espécies arbóreas nativas, criação de um banco de sementes destas espécies desprezadas pelo comércio tradicional e disseminando receitas ancestrais com uso destes alimentos, inclusive para fins medicinais.

Texto: Carolina Lopes, repórter do Observatório no Litoral Norte
Fotos: Divulgação
Edição: Bianca Pyl, equipe de Comunicação do Observatório
Colaboração: Maju Gomes Magalhães, coordenadora do Observatório



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